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“Quem não compreende o tempo que está a viver não se dá bem na moda” (1 mensagem)

01 Março 2009 - 00h00
Entrevista - Manuel Alves
“Quem não compreende o tempo que está a viver não se dá bem na moda”
É bem conhecido o estilo de Manuel Alves e José Manuel Gonçalves. Menos visível é a ‘outra’ actividade de Manuel Alves – professor na Faculdade de Arquitectura de Lisboa. É ele quem orienta os finalistas da licenciatura em Design de Moda que vão participar num concurso promovido pela Triumph. Um pretexto para falar do que é hoje o sistema de moda em Portugal e do que era há 30 anos, quando havia tendências. E até a crise desfilou nesta conversa. Garante Manuel Alves que a moda tem maneiras de dar-lhe a volta.

Para além de criador de moda, Manuel Alves é professor universitário. Que balanço faz desta sua outra actividade?

Comecei a dar aulas quando a Faculdade de Arquitectura de Lisboa se abriu a outro tipo de licenciaturas: Arquitectura de Interiores, Design de Equipamento e Comunicação... Orientei durante muitos anos a licenciatura em Arquitectura do Design, este ano é a primeira vez que não o faço. Tem sido uma experiência interessante... Aprendo muito com os alunos.

O que vão fazer exactamente os finalistas para o concurso lançado pela Triumph International?

Estão a criar um ‘outfit’, um conjunto de soutien e cuequinha com base no imaginário que tem a ver com os ícones – Picasso, Chaplin, ícones ligados ao cinema, ao lifestyle... Cada um escolhe o que quiser, sem imposições. Há muita fantasia e imaginação. Haverá depois um desfile nacional, em que os alunos apresentam esses objectos de vestuário interior, e quem ganhar vai lá fora.

Qual é a função do professor?

Eles fazem tudo: pensam e realizam. Eu oriento. O meu papel é de criticar o trabalho, sem limitar ninguém, dizer ‘não chega’ ou ‘está exagerado’.

O Manuel começou a trabalhar no mundo da moda com menos idade do que a que eles têm agora. Há pontos em comum?

Eu estreei-me na moda a sério em 1983. Já trabalhava antes mas em 1983/84 vim para Lisboa e abri uma loja no Bairro Alto. Há uma enorme diferença entre como era então e como é agora. Havia uma vontade quase estóica de se fazer aquilo de que se gosta. Sinto que esta geração é talvez pouco destemida. Os alunos estão muito agarrados aos pais. Os da minha geração eram mais corajosos. Nem pensar em viver na casa dos pais até depois dos 30 anos! Queríamos sair, ir embora e arriscar sozinhos.

Não havia cursos de Design de Moda. Onde procuravam conhecimento e referências?

Éramos quase autodidactas. O que aprendemos foi por nós próprios. Íamos atrás das coisas. Não nos eram dadas como uma escola dá aos alunos todos os dias.

Havia um olhar mais atento ao quotidiano?

Há sempre. É mesmo assim. Esta actividade obriga-nos sistematicamente a pensar... É um sistema que se renova de seis em seis meses. Temos de estar sempre actuais. As pessoas que não compreendem o tempo que estão a viver não se dão bem na moda.

Agora vivemos um tempo de crise. Como é que a moda reage ou reflecte isso?

As pessoas compreendem-se através da moda. Isso tem-se visto ao longo da História. Olhando para a maneira como as pessoas se vestiam é possível compreender o tempo em que viveram. Neste momento é mais complexo porque, cada vez mais, não se seguem tendências. Os indivíduos fazem o que entendem. Numa crise há quem reaja trabalhando com cores pois há uma tentativa de contrariar o ambiente geral. Outros, mais circunspectos, reagem pondo-se de negro. Hoje, o sistema é mais aberto do que antes. Nos anos 80 e 90 havia tendências, um todo. Hoje há partes. Eu gosto mais de hoje.

Mas é interessante que, apreciando essa liberdade do indivíduo, trabalhe em dupla... [Manuel Alves & José Manuel Gonçalves]

Há uma visão que partilhamos. Depois cada um fornece coisas a esse trabalho e critica o outro. Uma pessoa que trabalhe sozinha pode cair no egocentrismo e é perigoso. Nas grandes casas lá fora, os directores artísticos condicionam o trabalho dos designers. Nós temo-nos um ao outro e não nos temos dado mal.

Qual é a relação entre os criadores e a indústria?

Podíamos ter grandes marcas, como em Espanha, mas não temos porque as empresas nos olham com olhos ‘bacocos’. A indústria portuguesa nunca tirou proveito do capital criativo. Há um virar de costas completo.

Neste contexto qual é o seu caminho?

O meu caminho é só fazer aquilo de que gosto e que me apetece fazer. Não estou disposto a deixar-me condicionar por ninguém. Só me deixo condicionar pela vida, por aquilo que as pessoas me dizem. Não me tenho dado mal. Tenho um percurso interessante no sistema de moda português. Eu e o José Manuel Gonçalves procuramos sempre imagens interessantes, procuramos a perfeição, o corte com sofisticação. Trabalhamos para um nicho de mercado. Trabalhamos para as pessoas que nos entendem. O discurso das grandes áreas é que é para toda a gente.

PERFIL

Manuel Alves começou a trabalhar em 1979 no Porto, mas foi em Lisboa, mais exactamente no Bairro Alto, que, em 1983, criou, com José Manuel Gonçalves, a sua própria loja. "Éramos destemidos, arriscávamos, não tínhamos medo." Agora, quase 30 anos depois, tem um privilégio raro: fazer apenas o que lhe apetece. Trabalha para um nicho de mercado. Trabalha para quem o entende. E mais nada.
Isabel Ramos

http://www.correiomanha.pt/noticia.aspx?contentid=719F49DF-4012-42D7-B6DD-7E99DB36FBCB&channelid=00000019-0000-0000-0000-000000000019