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À procura de uma vida melhor na cozinha (1 mensagem)

Mais de duzentas pessoas, desempregadas e sem perspectivas de obter emprego, candidataram-se ao curso de cozinheiro cujas aulas práticas terão lugar no centro gastronómico de Povos, Vila Franca de Xira. Apenas 16 foram escolhidas, que agora procuram recomeçar a sua vida.

Nos olhares nota-se o brilho da motivação. Nas palavras o gosto e a ambição. Atributos que muitos dos 16 formandos que irão ter aulas do curso de cozinheiro no futuro centro gastronómico de Povos já haviam esquecido e perdido, fruto de meses e até anos de desemprego.

Reunidas numa sala estão 16 situações sociais diferentes que têm em comum apenas três factores: todos residem no concelho de Vila Franca de Xira, estavam desempregados aquando do início da formação e não tinham o 9º ano de escolaridade. Voltam aos bancos da escola ao abrigo do programa Novas Oportunidades e foram escolhidos de entre mais de 200 candidaturas.

“Se não fosse este curso não sei o que seria de mim, estava desempregada há quase um ano. Provavelmente agora andaria por aí aos caídos”, refere uma das participantes a O MIRANTE.

O curso de cozinheiro é tido pela maioria destas pessoas como a derradeira oportunidade para fintar as adversidades que a vida lhes atirou. Em alguns casos até situações de miséria. A formação não só lhes permite obter conhecimentos numa área com cada vez maior procura como também lhes atribui um vencimento que, de outra maneira, seria difícil de assegurar.

“O objectivo final é que sejam cozinheiros de qualidade. A formação é especificamente voltada para estas pessoas, que são formandos que deixaram os estudos há bastante tempo, vêm de situações sociais complicadas e têm idades bastante diferentes”, informa Hugo Silva, responsável do curso. A formação está dividida em duas fases: formação de base (que inclui o ensino da matemática, tecnologias de informação e comunicação, linguagem e cidadania) e a formação tecnológica, voltada para os ensinamentos práticos da profissão de cozinheiro. A turma é composta por pessoas dos 20 aos 50 anos. Apenas dois são homens. “Quem frequenta este curso tem tudo para singrar e mudar para melhor o rumo da sua vida. Eles já fizeram contactos com vários restaurantes aqui da zona e já puderam constatar que há muita procura. Estão todos com um elevado nível de motivação e têm consciência de que fazem parte de algo especial e de que vão sair dali com uma mais valia essencial para terem um futuro melhor”, refere Hugo Silva.

Alguns dos presentes poderão não se adaptar aos futuros métodos de trabalho e esse é o principal desafio dos formadores. “Cozinheiro é uma profissão que exige algum espírito de sacrifício e eles têm de ser capazes de fazer esse sacrifício. Mas acredito que a maioria irá ser bem sucedido”, conclui o responsável.

Centro Gastronómico de Povos ainda por inaugurar

A inauguração do centro gastronómico de Povos, em Vila Franca de Xira, está atrasada. A abertura prevista para o dia 10 de Março teve de ser adiada porque a remodelação do espaço ainda não está concluída. “O atraso tem a ver com questões processuais. As obras estão a demorar mais tempo do que aquilo que esperávamos”, lamenta José Fidalgo, presidente da junta vilafranquense. “Os formandos do curso vão ajudar a montar os equipamentos e espera-se que para o final do mês o centro esteja operacional”, informa. O centro nasce no local onde estava situado o antigo clube de Povos e o orçamento global ronda os 230 mil euros.

Sem idade para brincar com a vida

Residente no bairro dos avieiros, em Vila Franca de Xira, Ana Brito, de 42 anos, trabalha na indústria hoteleira desde os 14 anos. “Como a minha mãe não teve possibilidades de eu continuar a estudar, só andei na escola até à 4a classe”, lamenta. Diz que gostava de, no final da formação, tirar o 12º ano. Antes de ingressar no curso estava desempregada há dois meses. O subsídio que aufere no curso dá-lhe para as despesas, mas espera ganhar mais logo que acabe a formação e comece a trabalhar. Era empregada de balcão. “Já não temos idade para brincar com a vida”, afirma.

A lutar contra as portas fechadas

Carla Niza, 37 anos, residente em Alverca, já tentou agarrar várias oportunidades de emprego, mas a baixa formação fechou-lhe todas as portas. Como grande parte das suas colegas de curso, Carla deixou de estudar no final do quarto ano. “Depois estive a trabalhar em várias áreas, sobretudo comércio. Explorei um restaurante meu durante dois anos. Depois trabalhei durante um ano em consultadoria financeira em regime de recibos verdes”, recorda. Além das elevadas despesas, Carla ficou três meses sem receber ordenado. Em aflição recorreu ao telemarketing. “Acabei desempregada. Fiquei assim durante quatro meses”, lamenta. Viu o anuncio do curso, candidatou-se e foi aceite. O que mais lhe seduz são os inventos. “Sobretudo os arranjos de mesa. Estou muito feliz porque não tinha formação académica para ingressar noutros empregos”, garante.

Desempregado com uma filha de 3 anos

A vida tem sido madrasta para Ricardo Rebelo. Os “pontapés” que deu na vida estão ainda a provocar-lhe dores. Reside em Vila Franca de Xira, tem 25 anos e é pai de uma criança com três anos. Ricardo é um dos dois homens que frequentam o curso. Estava desempregado há vários meses, fruto de empregos precários e uma situação económica adversa. “Deixei de estudar muito cedo e comecei logo a trabalhar numa oficina de automóveis. Depois tem sido trabalho aqui e ali, nunca arranjei um emprego estável”, lamenta. “Vi o folheto na rua e achei que era a minha oportunidade. Liguei, fiz os testes e fiquei”, diz com orgulho. Para Ricardo, o seu grande objectivo era ficar a trabalhar num emprego estável, que permitisse mudar a família para uma casa melhor. “Estou farto da precariedade e dos trabalhos temporários”, afirma.

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