PATRÍCIA JESUS
Engenheiras discriminadas na construção civil
Trabalho. Há áreas da engenharia onde as mulheres ainda têm dificuldade em entrar: encontrar engenheiras a dirigir obras é muito raro. O DN falou com engenheiras que enfrentaram situações de discriminação e descobriu que também é raro fazerem queixa à Comissão para a Igualdade no Trabalho
"Não queremos raparigas para trabalhos no local da obra." Esta é uma resposta que Ana (nome fictício) já ouviu algumas vezes nos três meses que anda à procura de trabalho. A engenheira civil queixa-se de discriminação quando se candidata a certo tipo de posições, nomeadamente as que exigem presença diária nos locais de construção. Uma experiência partilhada com várias colegas, assegura.
Nas engenharias, a direcção de obras parece ser a última barreira, já que as mulheres estão em peso na fiscalização, nos gabinetes e nas áreas da segurança e ambiente. As empresas admitem que há poucas engenheiras no terreno, mas negam que exista discriminação.
Ana já teve provas do contrário: "Telefonei para responder a um anúncio e disseram-me que a vaga já estava ocupada. Fiquei desconfiada e pedi ao meu namorado para telefonar uns minutos depois. Para ele a vaga já estava disponível", conta.
Para Catarina Marcelino, presidente da Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego (CITE), esta é uma "situação clara de discriminação" mas "é preciso fazer queixa". "Só com queixas podemos actuar e usar os números para pressionar as entidades", diz. No último ano, a CITE recebeu apenas 11 queixas de discriminação por causa do sexo e nenhuma nesta área. A Ordem dos Engenheiros não tem conhecimento de nenhum caso.
Ana diz que nunca se queixou pela mesma razão que prefere não dar a cara e nos pede para não revelarmos o nome verdadeiro: "Neste mundo toda a gente se conhece e não quero ficar marcada."
Outras nem se lembram dessa hipótese. Foi o caso da engenheira Mónica Luz, de 30 anos. "Sempre quis ir para a construção mas cheguei a ouvir em entrevistas que as empresas não queriam mulheres em obras porque o pessoal não ia aceitar bem, mesmo as grandes empresas." A experiência que teve nos quatro anos que esteve a dirigir obras - da Madeira ao Algarve - foi bem diferente. "Os primeiros dias são sempre complicados porque os trabalhadores não estão habituados a ver mulheres na obra - é raro encontrar uma -, mas tive sempre experiências muito boas."
Manuela Tavares, da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), acrescenta que "às vezes as empresas embrulham a questão: falam na disponibilidade, em padrão de exigência, etc.". Mas para a dirigente da UMAR, a ideia de que as mulheres têm menos disponibilidade é uma desculpa. "Usam-se estereótipos porque ainda não se admite que uma mulher possa estar entre homens e mandar neles", diz.
http://dn.sapo.pt/2009/03/14/sociedade/engenheiras_discriminadas_construcao.html
