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Falar de arte, o trabalho dos assistentes de exposição (1 mensagem)

Isadora Ataíde texto
Vasco Neves fotos
Uma assistente de exposição do Museu Berardo. Um trabalho que exige conhecer arte moderna e contemporânea, falar línguas, estar receptiva para dialogar com os visitantes, responder a dúvidas complexas sobre os movimentos artísticos e outras mais simples como a localização das casas de banho. Jovens que sonham ser artistas e como assistentes subsistem e aproximam-se de criadores, teóricos e amantes da arte
Encontro a Magali no autocarro, a caminho de Belém. Estamos as duas atrasadas, justifico com o encerramento da Praça do Comércio e a mudança na localização das paragens do eléctrico e auto- carro, desorientei-me na manhã quente de terça-feira. Entramos no anfiteatro às 09.55 para a reunião de assistentes que antecede os turnos da manhã e da tarde. Somos informadas das visitas marcadas, estudantes do ensino primário e secundário. Nádia Palma, designer, 22 anos, comenta que os visitantes gostam tanto da exposição "Arquivo Universal" que estão a levar a título de "recordação" os livretos informativos. Margarida Aguiar, pintora, 25 anos, observa que os visitantes não vêem os bancos portáteis e depois queixam-se da falta de cadeiras para relaxar e reflectir. "Deve-se orientá-los, estão num charril na entrada", sublinha. Manhã planeada, distribuímo-nos entre as duas exposições temporárias e o roteiro em mostra da colecção permanente.

Falar de arte com os visitantes sobre as exposições temporárias e a colecção permanente, auxiliar no cuidado com a integridade das obras e orientar sobre itinerários são as razões de ser dos assistentes de exposição.

No Museu Berardo, 26 jovens na faixa dos 20 anos compõem a equipa, recém-licenciados, a maioria em Artes Plásticas, mas também em Designer, História e Turismo. A recibos verdes, ganha-se 20,50 euros por turno de quatro horas e meia. Artistas ou a caminho de tornarem-se, trabalham em part-time para subsistir em interacção com a arte, seus apreciadores, teóricos, curadores, artistas e jovens artistas. "A nossa actividade é fundamental, ajuda as pessoas a saírem das exposições de um modo diferente do que entraram, a observarem perspectivas que não teriam sem o diálogo connosco. Não é um serviço pago e a abordagem é pessoal", explica Maribel Sobreiro, 28 anos, arquitecta.

O meu turno será no Arquivo Universal, uma exposição sobre o documento na história da fotografia ao longo do século XX. O presidente Roosevelt e Joe Di Maggio ilustram duas capas da Revista Life nas décadas de 30 e 40. Fotografias de André Kertész e Cartier Bresson, livros que abordam a história dos negros nos Estados Unidos, a reprodução do Pavilhão Soviético na Exposição de Estugarda, em 1929, imagens da guerra, da urbanização e paisagens são possibilidades da mostra. Fico ansiosa com tanta informação. Como explicar aos visitantes as centenas de fotografias, as instalações, os documentários e slides exibidos? Mara Silva, 28 anos, artista plástica e professora, orienta-me: "Recebemos formação, em geral do curador da exposição, mas é preciso ler e estudar em casa. Aprendemos ainda com os visitantes, quando não são especialistas também ensinam muito, pois têm um olhar livre de preconceitos. O importante é situar as pessoas no contexto da exposição, no período que está a ser retratado, a abordagem de cada núcleo expositivo."

Jeans, sapatilhas e T-shirt são a farda dos assistentes. E se me confundem com o pessoal da segurança? E se pensarem que estou lá apenas para sorrir? E se, tratando-se de um museu de arte contemporânea, julgarem que sou uma instalação? E se tiverem medo do meu "conhecimento" sobre arte e ficarem constrangidos em perguntar? "As pessoas ainda não estão suficientemente educadas para o papel dos assistentes de exposição, inclusive porque a maioria dos museus não os tem. As visitas receiam mostrar que não sabem e afastam-se. Por isso, é muito importante a função do assistente que fica na entrada principal, pois apresenta e retrata a nossa função", observa Ana Rita Cândido, 34 anos, escultora.

A cada duas horas trocamos de lugar dentro da mesma exposição, "até arte cansa", penso. Hoje são quatro assistentes no Arquivo Universal, dois na exposição sobre Raúl Peréz, quatro na colecção permanente e um na recepção. Nesta manhã, Andreia Ferreira, técnica de turismo, 21 anos, está responsável por receber. Ela não perde a postura frente às dezenas de crianças que precisa de contar, aos folhetos que deve distribuir e às orientações sobre o caminho para as exposições. Aponta e explica a aparentemente invisível obra de arte de Ann Veronica Janssens, de 2007. "Trata-se da instalação que cobre a cúpula em que se encerra o tecto do Museu. É vidro transparente, modifica-se de acordo com o tempo, possibilita novas visões e leituras se está sol ou chuva. Daí a denominação Sometimes", justifica.

Quarta-feira à tarde, o meu lugar é no piso 2, obras da colecção do Museu, a exposição chama--se "Não te posso ver nem pintado" e atravessa os últimos 50 anos da pintura figurativa. Um casal de franceses questiona Magali sobre o que será instalado no piso 01, visível, com as paredes tomadas por linhas pretas e na faina dos preparativos. "Uma exposição do austríaco Peter Kogler, a primeira em Portugal. Aborda a concepção de espaços de arquitectura que oscilam entre a ficção e a realidade, grandes dimensões, as artes gráficas", define Magali Marinho, 27 anos - artista plástica que uma vez por mês abre a sala da sua casa para jovens artistas exporem e desenvolve a banda desenhada "As Aventuras do Fernando Pessoa, escritor universal".

Ver, duvidar e reflectir

São quatro da tarde e hoje 442 pessoas já visitaram a selecção de pinturas da colecção, desde o início do ano foram mais de 75 mil visitantes. Os adolescentes em bando ficam quietos para ouvir as explicações do professor sobre a tela Gary and Paul, 1988, de Jason Brooks, aliás a favorita da assistente Inês Soares, designer, 21 anos. "Óleo sobre tela, mas parece uma fotografia, a técnica é muito apurada. Por vezes parece a mesma pessoa em dois momentos da sua vida." Turistas alemães passam por mim a cumprimentar e a sorrir, uns amigos italianos ficam confusos, dão um "olá" e seguem. Uma mulher de corpo atlético pára em cada obra apenas o tempo necessário para apertar o gatilho da máquina fotográfica.

Estar em pé durante quatro horas e meia é árduo, olho o banco dos assistentes e não resisto. Aproveito para treinar uma breve abordagem da minha obra favorita, The Barn (O Celeiro), de Paula Rego, 1994. "A técnica é acrílico sobre tela e enquadra-se no neoexpressionismo. As telas da artista contam histórias que apenas ela conhece e apresentam o momento dramático. Duas crianças surram uma mulher deitada - a retratar/criticar a violência contra a mulher? Estão presentes muitos elementos a caracterizar o celeiro, a vaca no plano principal, na qual um gato mama, uma mulher entre galinhas, pedaços de melancia no chão, morcegos presos no tecto e detalhes como ferramentas e flores. A artista diz trabalhar com trajes de teatro para estimular a sua falta de imaginação, acredita?" Bem, fiquei um bocado vaidosa quando me apercebi da situação: "Eu trabalho com a Paula Rego."

"A arte é um prolongamento do corpo", a frase faz a vez de poesia, convite e introdução para a exposição "Desenho e Pintura" - 1963/2008, Raúl Perez. "Recebemos formação do próprio artista para esta exibição. Ele falou-nos sobre a técnica - a tinta é aplicada em várias camadas e depois raspada - e os seus diversos períodos e as temáticas. É um momento muito rico porque conhecemos a obra e capacitamos-nos para dialogar com o público", salienta Ana Catarina Verdier, 30 anos, formada em Artes Plásticas. São 92 telas, em óleo, tinta-da-china ou carvão. "Um visitante disse-me que ele tinha uma visão pessimista do mundo, talvez ele não quisesse transmitir isso, mas a ruína tem lugar. O Raúl diz que as suas pinturas são um reflexo do seu estado de interiorização, uma abstracção entre o consciente e o inconsciente." Fico a cuidar dos visitantes, por vezes aproximam-se em demasiado das telas, colam o rosto. As colegas dizem que muitos "vêem com as mãos" e é preciso, delicadamente, chamar a atenção.

Os meus tempos como assistente de exposição estão a acabar. Ocorre-me que outros museus deveriam aderir à política dos assistentes, gente que estuda, conhece e faz arte para aproximar os visitantes. Talvez possamos contribuir para aumentar a frequência das visitas ou a aproximar as pessoas das obras. Para os que ficam inquietos, insanos, com dúvidas, reflexivos ou seduzidos pelas obras de arte e desejam uma partilha imediata, podem chegar. Ouvimos e falamos, se não soubermos as respostas, talvez seja possível qualificar as dúvidas. Como escreveu o filósofo Walter Benjamim, em 1936: "A diferença entre o autor e o público está prestes a perder o seu carácter de base."

http://dn.sapo.pt/2009/03/15/sociedade/falar_arte_o_trabalho_assistentes_ex.html