por Isaltina Padrão28 Março 2009
O DN foi conhecer os bastidores que servem de suporte a metade dos cerca de 3500 taxistas que trabalham em Lisboa. (COM GALERIA DE FOTOS)
"Radiotáxis, bom dia, fala a Isabel." Quase em simultâneo, a mesma frase é debitada automaticamente para os diversos microfones da central telefónica. Só que, em vez de falar a Isabel, fala a Sónia, a Manuela, a Maria José, a Isilda, qualquer outra operadora, até a Tânia, a mais recente aquisição que, desde o inÃcio de Janeiro, integra a equipa de 16 operadoras da Radiotáxis, mais conhecida por Retális.
O nome da operadora varia, mas o objectivo é o mesmo, nesta ou em qualquer outra central: 24 horas por dia saber onde é que o cliente, sempre cheio de pressa e por vezes maldisposto, quer de imediato um táxi à sua disposição. E são muitos os pedidos telefónicos que caem nas centrais. Na maior cooperativa de táxis do PaÃs atingem-se facilmente as três mil chamadas em dias bons, como os de chuva, em que o ritmo alucinante das ligações funciona como boletim meteorológico. "Há muitas chamadas, está a chover."
Mas, mesmo com sol, mal há tempo para respirar no "coração da cooperativa", como chama à central a operadora Isabel Fernandes (uma veterana), que aos 43 anos trata monitores, teclado e auricular por tu. Desde os 18 que vive no mundo dos táxis e não brinca em serviço. Vozes sem rosto, as operadoras são o elo de ligação entre motorista e cliente. Uma ligação que vai muito para além da componente profissional. A central acaba por ser uma extensão da famÃlia, onde se "conhecem" pessoas, também sem rosto.
Num ápice, Isabel lembra-se de uma entre muitas: "Desde que cheguei cá que atendo um piloto que hoje já está reformado, mas continua a usar os nossos serviços. A empatia surgiu de imediato e construiu-se uma amizade através da voz. Uma vez até me enviou um ramo de orquÃdeas." Na azáfama que vive entre as 17.00 e a 01.00, o turno de Isabel permite-lhe criar relações que, de alguma forma, servem para colmatar a ausência do marido, um empresário do sector.
E é a trabalhar por turnos de oito horas e com um salário médio de 600 euros que as operadoras se desdobram para "apagar todos o incêndios" nos três possÃveis postos de trabalho da central e ainda dar atenção "a clientes carentes". Numa filosofia de baralha e volta a dar, as operadoras passam pelo canal de distribuição de serviço, o de atendimento e o de apoio. Numa nova versão de OlÃvia costureira/OlÃvia patroa, as operadoras são pau para toda a obra. Isabel e as colegas necessitam de "duas bocas e quatro ouvidos" para dar conta do recado. "Um móvel à praça de táxis da Paiva Couceiro"; "Sim, colega. O cliente já está à porta"; "Retális, bom dia"; "Colega, a cliente que acabou de transportar perdeu uma agenda. Queira verificar se se encontra na viatura." Para fornecer todas estas informações em poucos segundos, os três canais funcionam em simultâneo.
A telefonista atende apenas as chamadas de pedidos de táxi que depois reencaminha para a colega que está no canal de distribuição de serviço. "Retális, bom dia, fala a Maria José" ; "Queria um crédito por favor" (pede o cliente, que por ser a crédito - tem um acordo com a cooperativa - é prioritário e passa à frente de todas as chamadas em espera); "E qual é a morada?" Já na posse de todas as informações, Maria José passa os dados para o canal de distribuição de serviço onde, neste caso, está Isabel na função de operadora. "Um móvel à praça de táxis do Altis (porque é a que fica mais próxima da morada do cliente)"; "Móvel X na praça de táxis do Altis"; "O carro já vai a caminho, tenha uma boa noite" (diz a operadora ao cliente). O processo finda aqui e, freneticamente, Manuela, que está agora no atendimento, Sónia no apoio e Isabel na distribuição, despacham serviço atrás de serviço, já que "a primeira função da operadora é deixar a central sem clientes à espera". Não é fácil.
No serviço que foi exemplificado, pode dar-se o caso de ninguém responder à primeira vez da praça do Altis. A operadora alerta mais uma vez a chamada à referida praça e pergunta quem está em segundo lugar. Ninguém responde. A operadora dá então a indicação da morada do cliente, podendo responder à chamada o carro que está mais próximo para servir melhor o cliente. É aqui que muitas vezes surge a confusão e a comissão de fiscalização e disciplina tem de agir.
Dois táxis e às vezes mais disputam a corrida. "Móvel Y está na Alexandre Herculano com a Avenida da Liberdade"; "Móvel Z encontra-se no Marquês com a Duque de Loulé". De duas uma: ou o carro que está mais distante se rende e não responde mais, ou dá-se um impasse que cabe ao fiscal resolver, atribuindo o serviço ao móvel que está efectivamente mais bem localizado para efectuar o serviço. A avaliação tem de ser rápida e certeira. O taxista que tentou sobrepor-se será "castigado".
Intercaladas com as funções do canal de distribuição de serviço e do canal de apoio, onde estão agora Manuela e Sónia respectivamente, há inúmeras chamadas para atender. "Quando estamos na função de telefonista, atendemos só chamada, mas na função de operadora desempenhamos sempre dois trabalhos em simultâneo: entrega de serviços aos táxis e atendimento ao público ou apoio aos colegas e aos clientes e atendimento ao público", explica Isabel, enquanto trabalha "neste caos organizado". E chama mais um táxi. "Móvel 736 a caminho."
Um negócio familiar
Como ainda não são 18.00, é Alda Gil que vem a conduzir o 736, porque ainda está no seu turno. Um pouco depois, a partir das 19.00, já caberia ao marido, LuÃs Gil a função de motorista. Uma tarefa que há uns meses também poderia ser desempenhada pela filha, Susana Gil, que entretanto se "emancipou" e começou a trabalhar no 624.
Geralmente, o métier de taxista é um "bichinho que passa de geração para geração", e a famÃlia Gil é um exemplo disso. O pai de Alda estava ainda na tropa quando "começou a fazer uma perninha nos táxis". Terminou, comprou um carro a meias com um familiar. O negócio foi crescendo e deu para cada um ter o seu táxi. O pai de Alda passou a partilhar o seu carro com o genro, cabendo a LuÃs o turno da noite. "Sempre fiz noite e não quero outra coisa. As pessoas são menos stressadas e o perigo é menor porque dá para estudar melhor o cliente", sustenta este homem, cujo desemprego o arrastou para o mundo do "ganhar a vida à bandeirada". Igual destino teve a mulher com quem partilha o móvel 736. No turno de dia, Alda terá de fazer sempre mais corridas para atingir os montantes angariados pelo marido. A inflação do custo da bandeirada à noite (2 euros de dia e 2,50 euros à noite, na tarifa 1) a isso a obrigava, se fosse esse o objectivo. Mas não.
Já LuÃs Soeiro, de 35 anos, tem direito a cobrar os dois preçários porque, "por ter isenção de horário", pega à hora que lhe dá mais jeito. Também filho de um taxista, LuÃs anda ao volante do 176 há oito anos, altura em que a extinção do seu posto de trabalho numa empresa ligada à Internet o empurrou para esta "espécie de tropa onde nem nomes existem. Só números". Por isso, não conhece a Susana Gil, mas sim o móvel 624.
Uma mulher de coragem
Os antecedentes familiares, a ida para o desemprego e o gosto por conduzir levaram Susana Gil, de 27 anos, a seguir as pisadas do avô e dos pais. E, porque não é mulher de medos, decidiu fazer a mesma escolha do pai: trabalhar à noite, altura em que apanha "clientes muito mais interessantes". Quem a quiser encontrar, não tem nada que enganar: é na praça de táxis do Chiado que o móvel 624 pára. O estágio foi feito com o pai ao lado, mas a primeira corrida a sério (que tem só alguns meses), Susana fê-la sozinha.
"Gosto de andar por minha conta, mas sempre que preciso de algum auxÃlio telefono ao meu pai", confessa Susana, dizendo em tom de brincadeira, que o telemóvel é o seu "GPS personalizado com a voz do pai". Um instrumento de segurança que se viu impossibilitada de usar quando lhe apontaram uma pistola à cabeça. Eram 23.45 quando apanhou um cliente "de fato e gravata" na Calçada da Ajuda. Entraram mais dois e mandaram-na ir para a Cova da Moura com o táximetro ligado para não levantar suspeitas. "Eles fizeram lá o que tinham a fazer e tive de os levar novamente à Calçada da Ajuda, sempre sob ameaça de uma pistola", conta. Isso não a demoveu de continuar a trabalhar nessa mesma noite, agora com as portas trancadas e o telemóvel sempre à mão.
"Como vêem, estou aqui inteira e pronta para iniciar mais um turno", e talvez apanhar um dos seus cinco clientes fixos - uma pequena carteira que muito orgulha Susana, que dá os primeiros passos na profissão.
O stressado
Quem aparenta ser já batido na lide é João (nome fictÃcio). Apesar de saber que transportava clientes a crédito e jornalistas que poderiam denunciar a situação, João não parou de refilar durante toda a corrida. "Não sei se sabem mas a Avenida do Brasil com o Relógio não é aqui." Esta foi a primeira implicação do motorista a quem, se explicou que o pedido "foi feito para aqui". Desculpou-se com a colega da central "que se enganou". E deu-se inÃcio à corrida.
E foi realmente uma corrida porque o fraco trânsito domingueiro assim o permitiu. Mas os semáforos funcionam e o vermelho ordena a paragem. Tinha o verde acabado de autorizar a passagem e já o nosso nervoso taxista buzinava à condutora da frente que não podia voltar à esquerda quando lhe apetecesse mas sim quando os carros que vinham no sentido contrário o permitissem. "Doucement, chérie, doucement. Tens de ir entrando, senão não saÃmos daqui." Uma guinada para aqui outra para ali, conseguiu o que queria: ultrapassar a "condutora de domingo". Mais uma buzinadela e o machismo a vir ao de cima. "Aposto que nem cozinhar sabes, quanto mais conduzir, chérie." O nosso pedido para ter calma de nada serviu. Pé no acelerador e a corrida prossegue. Já na Rotunda do Marquês de Pombal, mais umas buzinadelas a outra condutora "que também devia estar na cozinha" pois "nem as regras para circular nas rotundas conhece".
Gentil e culto
Frases que nunca seriam proferidas por Artur, o motorista de 53 anos e seis de profissão, que sai do carro para abrir a porta ao passageiro (para ele a palavra cliente não existe). Existem pessoas que "fazem uma passagem" no móvel 773, onde viajar (Artur não faz corridas, transporta) é uma autêntica sessão de spa. A responsável é a Antena 2, sempre sintonizada. Artur confessa que a música clássica é um prazer seu e não para criar um ambiente aprazÃvel no táxi. Mas reconhece que isso acaba por acontecer. "Chegados ao destino há quem me peça para ficar mais um pouco no táxi para ouvir o resto de um trecho" e, muitas vezes, trocar ideias musicais.
"Eu não sei viver sem música e muito menos trabalhar. Admito que este prazer acaba por criar alguma empatia com os passageiros", conta, enumerando celebridades que já passaram pelo seu carro. João Braga, Rodrigo, Jorge Palma, Anita Guerreiro, Fausto, MÃsia e outros que já assinaram o livro de autógrafos que anda na bagageira, juntamente com a cadernetas de recibos, que os passageiros nem precisam de pedir. "Deseja recibo?" É a última frase que Artur utiliza antes de se despedir do passageiro com um "até à próxima".
http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1184331