Opção vocacional é inata a cada personalidade
Questões e problemas à volta da vocação e das pessoas
A vocação não se improvisa, antes, é algo inato que se vai desenvolvendo ao longo da vida, em condições mais ou menos favoráveis, de acordo com a opinião recolhida pelo JORNAL da MADEIRA junto do público em geral. A maioria, entretanto, associa o “ter jeito para...” ou o “dom natural” a uma concretização efectiva no campo profissional que assegura ao mesmo tempo uma certa felicidade .
Do ponto de vista sociológico, como interpretar este conceito? Que entendimento se deverá ter face ao contexto actual? A resposta a estas questões é-nos dada pelo dr. Fernando Oliveira, que também confirma em grande parte o parecer generalizado: “O sentido com que é correntemente utilizada a palavra vocação prende-se normalmente com a escolha de uma profissão, referindo-se à inclinação de um indivíduo, a sua maior aptidão, facilidade ou habilidade numa determinada área. Ou enquanto estudante, perceber qual a habilidade em que é mais propenso ou tem mais facilidade para trabalhar as informações relativas a uma profissão”.
Nesse contexto, explica ainda o sociólogo, “perdeu-se uma dimensão mais espiritual, e se quisermos até, metafísica, do sentido da palavra vocação: de chamamento, de predestinação para determinado fim”. E o facto é que, actualmente, “faz-se uma forte associação entre vocação e profissão, mais relacionada com opções e carreiras profissionais”.
Ter ou não ter vocação para... implica ainda uma noção de prestígio, estatuto e poder, e a falta de oportunidades para que ela se realize poderá causar “frustrações”. A par da “aptidão natural” requere-se então um vasto “conhecimento”, a vários níveis.
“Vocação é também conhecimento do mundo, dos outros, de si próprio, e isso é uma coisa que se adquire ao longo da vida e resultante das nossas experiências (experiência de vida). Podem surgir facilmente nos jovens desejos por profissões, que no fundo, reflectem as projecções que os pais fazem nos filhos estudantes (a questão do status, do prestígio e dinheiro). Isso pode ser perigoso, porque pode resultar em frustrações tardias e perdas de tempo”, alerta o sociólogo.
Além disso, se a vocação “é conhecimento, não é expectável que um a pessoa adolescente/ jovem, por exemplo, tenha total clarividência quando faz uma escolha de profissão. Não será propriamente estranho que um adulto tome decisões que mudam totalmente a sua vida. Provavelmente isso significará, muitas vezes, que descobriu finalmente o verdadeiro sentido da sua vida, ou seja, a sua vocação”, admite mesmo Fernando Oliveira em declarações ao JM.
Analisada sob diferentes ângulos, a temática da vocação suscita sempre questões e problemas, pareceres e tomadas de posição, em correspondência com o momento presente ou a realidade actual. Apesar de tudo, em quaisquer circunstâncias, o objectivo último que se pretende concretizar passa pela “felicidade” da pessoa, através de uma profissão ou na “abertura ao outro para um mundo mais humano”.O retrato da sociedade através das vocações
As escolhas ou opções promovidas no ambiente social, a partir das oportunidades do emprego ou da orientação escolar, por exemplo, também podem caracterizar a sociedade em determinado momento ou época. “Esta situação é possível, sim, uma vez que a vocação e a escolha profissional têm uma dimensão cultural e histórica, fruto de contextos como o familiar, o social, o educacional, o político, o religioso, o económico, etc.”, confirma Fernando Oliveira.
Na leitura temporal deste sociólogo, e até há bem pouco tempo, “era normal nivelar as escolhas profissionais baseadas em algumas formações centrais, e as restantes, no fundo, constituíam fugas quando não se conseguia ingressar na primeira opção/escolha (Engenharia, Direito, Medicina…).” Por outro lado, e à partida, “certas formações conferiam status e prestígio, eventualmente por permitirem o acesso a profissões bem remuneradas e socialmente reconhecidas”; pelo que a escolha não podia ser tão arbitrária ou feita conforme ditava a “moda”.
Outro dado a ter em conta neste quadro é o facto da “escolha profissional, normalmente, coincidir com a transição dos jovens para a vida adulta”. Neste caso, “é possível identificar alguns modelos de transição, que mais actualmente podemos associar-se também às políticas existentes ou não, com as escolaridades mínimas, circuitos escolares, formação profissional, políticas de emprego, etc.”, aponta o especialista em assuntos da evolução social.A felicidade para além da realização profissional
Questão legítima e ao mesmo ambígua, de grande densidade subjectiva, é a “felicidade”. Parafraseando uma frase célebre, quase poderíamos dizer: “ser ou não ser feliz, eis a questão”, inerente a todas as vocações e possibilidades de cada um se realizar pessoal e socialmente.
Na óptica de Fernando Oliveira, esta “ideia ou sentimento de felicidade poderá estar, de facto, fortemente associada e dependente da ideia de realização pessoal, pelo que poderemos afirmar que, quanto maior for o sentimento de realização pessoal, maior será a felicidade de uma pessoa”.
Já quanto ao seu relacionamento quase obrigatório com a profissão, a felicidade deverá ser entendida com algumas reservas. “Essa realização poderá não depender, exclusivamente, da profissão exercida, mesmo sendo aquela para a qual possa ter maior aptidão ou inclinação. Se ligarmos a ideia de felicidade à de vocação, não devemos reduzir esta última à aptidão, facilidade ou dom inato de um indivíduo, uma vez que a maior parte das pessoas estariam como que condenadas à frustração, uma vez que não são contempladas com dons naturais, pelo menos identificáveis”, explica o sociólogo.Ser feliz é mais do que ter ...
“A felicidade, embora englobando a realidade profissional, vai além desta e expressa-se na vida concreta do dia-a-dia.
Daí que seja imperativo associar à ideia de vocação, outras dimensões: a do sentido da vida, que poderá expressar-se de diferentes formas, de indivíduo para indivíduo ( o dinheiro; o prazer; o conhecimento; o trabalho; amar; etc.); a abertura ao outro, ser solidário, uma vez que não vivemos sozinhos e é na relação com o outro que construímos a sociedade; a relação do homem com o mundo, onde o homem se faz e se transforma, ao mesmo tempo que o transforma em mundo humano ou seja, a cultura”.
Apesar destes pressupostos, Fernando Oliveira indica por outro lado que o caminho para a felicidade não está livre de dificuldades ou condionalismos. “É preciso ter em conta que a liberdade de escolha profissional, por exemplo, é condicionada pelas situações e depende do critério de escolha (é só o dinheiro que interessa?).
A formação e a vida actual podem proporcionar ao indivíduo um vasto leque de ferramentas e de conhecimentos que o podem ajudar a desenvolver capacidades que, associadas a uma formação humana sólida (o tal sentido da vida; abertura ao outro; relação com o mundo) poderão permitir que qualquer pessoa possa sentir-se realizada em tarefas/profissões muito diferentes. Tudo depende da perspectiva com que encaramos as coisas”, reconhece.
Numa palavra, são muitos os factores que concorrem para a felicidade pessoal, mas cada um deverá seguir os ditames da sua “vocação” no respeito pelo meio onde está integrado, considerando a profissão como uma “maneira através da qual o homem exerce o seu papel transformador do mundo.”
“Nesta ordem de ideias, a felicidade de uma pessoa depende muito do que ela consegue realizar, mas não apenas enquanto profissão, na forma de aptidão ou inclinação”, sublinha por fim o dr. Fernando Oliveira ao Jornal da Madeira.Quanto vale realizar a vocação
O tema da “vocação” não se esgota facilmente. A abordagem diversificada que a partir de hoje (e nas próximas semanas) o Jornal da Madeira propõe, com a colaboração de especialistas, tem por meta identificar factos, realidades bem conseguidas, realizações profissionais, que provam como o ser humano, em cada tempo e circunstância, tudo faz para ser feliz, pessoal e socialmente, seja através do emprego, da formação escolar, da política e até da “profissão religiosa”, entre outros aspectos.
Em todos estes ambientes procuraremos tratar o melhor possível as questões e os problemas relacionados com a “vocação ou vocações”, sem a pretensão de querer dar a última opinião ou absolutizar conceitos.
Nesta primeira reportagem, com a análise do sociólogo Fernando Oliveira, procurámos esclarecer em termos gerais as dimensões já referidas da vocação, em sintonia com “o sentido da vida, a abertura ao outro, a relação com o mundo e a importância da escolha da profissão como meio de atingir a satisfação e a felicidade”; sem esquecer, por outro lado, que já não estamos no “tempo da linearidade tradicional das carreiras profissionais” e que hoje se vive mais “um de instabilidade e incerteza”, como afirma aquele especialista.Vera Luza
http://www.jornaldamadeira.pt/not2008.php?Seccao=14&id=117513&sdata=2009-03-01