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Revoltados, sem trabalho e dinheiro (1 mensagem)

Trabalhadores concentraram-se à porta da empresa que acusam de os ter enganado. Queixam-se de ter adiantado dinheiro para ir trabalhar para Angola, mas já estão há meses à espera de ir e sem receber vencimento
Ontem
TIAGO RODRIGUES ALVES

Acenaram-lhes com salários acima dos 5 mil euros mensais para ir trabalhar na construção civil em Angola. O emprego era certo. Apenas precisavam de pagar 192 euros para as despesas burocráticas e rapidamente partiriam para o novo Eldorado africano.

Porém, as semanas passavam e as idas iam sendo adiadas pela empresa com a desculpa dos vistos. Alguns dos trabalhadores foram para França, com a promessa de seguir depois para África. Uns já voltaram sem receber nada, e outros continuam lá, também sem receber, mas prestes a regressar, pois nem dinheiro para comer têm. A grande parte dos que agora se queixam ficou cá e já não tem grandes esperanças de partir ou de reaver o dinheiro pago. Mas, prometem não desistir sem luta.

Ontem, concentraram-se algumas dezenas de trabalhadores à porta da empresa Moredo Prestige, na Rua de Santa Catarina, no Porto. Querem os passaportes, o dinheiro e que se faça justiça. Vários agentes da PSP estavam à porta e no interior do escritório para serenar os ânimos. O JN tentou ouvir a versão da empresa, mas a gerente remeteu-se ao silêncio e apenas os que tinham passaportes a reclamar passavam da porta da rua. Cá fora, os restantes davam largas à indignação.

"Paguei seiscentos euros. Mandaram-me despedir em Dezembro, que arrancava em Janeiro. Ainda cá estou e ando há três meses a ter de pagar carro, casa, luz água e comida, sem receber nada", explicava, ao JN, um dos contestatários. "Eu paguei quase duzentos. Tinha tudo pronto, até já tinha os papéis para levar os medicamentos no avião e anularam-me a viagem na última semana", desabafava outro. "Não dão a cara e ninguém vê o dinheiro. Devem-me dois mil euros", reclamava Gilcrécio Morais, recém chegado de França.

De acordo com alguns dos trabalhadores que subiram ao escritório, estavam dezenas de passaportes em cima de uma mesa. O número de pessoas afectadas, ninguém sabe ao certo, mas os operários estimam que sejam várias centenas ou mesmo milhares. Igual ponto de vista tem o presidente do Sindicato de Trabalhadores da Construção do Norte (STCN), Albano Ribeiro.

"Havia dias em que aquela empresa tinha mais de duzentas pessoas à porta", recorda. E diz que tem conhecimento de várias outras empresas a agir desta maneira. "Penso que a Judiciária deve investigar porque vão surgir mais casos destes, não só em França, como na Inglaterra, Holanda e até a Noruega", antecipa Albano Ribeiro e reafirma que o panorama é grave: "As autoridades têm de tomar medidas porque existem verdadeiras redes mafiosas que, articuladas com redes estrangeiras, estão a levar trabalhadores portugueses para fora".

Segundo contas do sindicato, há cerca de 120 mil operários no estrangeiro. Uma tendência que tende a aumentar com a subida do desemprego. E, "porque há quem viva à custa da miséria, as burlas também vão aumentar", antecipa o presidente do STCN. As burlas serão ainda potenciadas pelo facto de muitos dos que recorrem à emigração, através da construção civil, serem originários de outros sectores e não estarem habituados a estas práticas. Por isso, Albano Ribeiro aconselha todos aqueles que pretendam ir para o estrangeiro a contactar os sindicatos para saberem o melhor modo de agir.

http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Sociedade/Interior.aspx?content_id=1171368