Regional | 2009-04-05 12:32
São muitos os casos de pessoas que deixam o campo em direcção aos grandes centros urbanos. Há, porém, quem faça precisamente o contrário.
Paulo Decq trocou o seu emprego como gestor hoteleiro por uma vida mais saudável, a todos os níveis, na Quinta dos Sabores, em Rabo de Peixe. Alguns chamaram-no louco, mas hoje arrependem-se de ter duvidado dele.
Hoje o jovem agricultor faz da agricultura o seu sustento. Na Quinta dos Sabores, antiga quinta de laranjas situada nos limites da Vila de Rabo de Peixe, Paulo Decq cultiva agora legumes e fruta, que servem para consumo próprio, mas principalmente para venda, quer a hotéis e restaurantes, quer a clientes individuais.
A opção foi, não só cultivar os legumes mais tradicionais, mas também trazer algo de novo à agricultura açoriana.
Para além do repolho e da couve, cresce na Quinta uma grande variedade de alfaces, couve pak choi, corgete, mostarda, tomate, cereja e muitos outros tipos de legumes estranhos ao paladar açoriano. O objectivo é satisfazer as exigências ‘gourmet’ dos hotéis que são clientes da quinta, bem como dar a conhecer estes produtos aos consumidores.
A vida tranquila que Paulo Decq partilha na quinta com a família, com os seus dois cães e com muitos gatos e galinhas é quase imperturbável. Nem “a maldita mosca do Mediterrâneo”, uma das pragas que afligem as suas culturas, o faz perder a calma.
Para combater as pragas, o ex-gestor hoteleiro admite recorrer a pesticidas - o que impede que a Quinta dos Sabores seja de agricultura biológica - mas Paulo tenta usar os químicos o menos possível.
Enquanto chama os cães (o Salsicha e o Caramelo, entusiasmados com a nossa presença, pisavam alguns repolhos, alheios ao trabalho suado do dono), Paulo explica que anda a aprender a cultivar os produtos “de forma mais científica”, por forma dar mais qualidade aos seus frutos e legumes.
Para além de cultivar vegetais de todo o mundo, Paulo Decq tenta também recuperar algumas culturas tipicamente açorianas, que entretanto caíram em desuso, como a acelga. Paulo conta-nos que tem tido “algumas visitas de pessoas mais idosas que trabalhavam no campo, e que reconhecem ‘epá, ao tempo que eu não via as acelgas’. É muito engraçado.”
A actividade futura na Quinta passa por continuar a recuperá-la e por expandir o negócio, que Paulo admite ser rentável, a outras áreas, nomeadamente o turismo.
O ar puro do campo, a alimentação mais saudável, a ausência de ‘deadlines’ e pressões, e principalmente, o facto de ser o seu próprio patrão, já mostram os seus resultados a nível de bem-estar psicológico e também físico. “Os meus amigos dizem-me mesmo que estou com melhor cara e mais descontraído”, conta Paulo. Se calhar, são os mesmos que o chamaram de louco quando decidiu abraçar este projecto. Fiquem agora com inveja, tal como nós ficámos após esta visita.
Isidro Fagundes/Rui Jorge Cabral